23 de setembro de 2026
Quando o rio baixa, o que Manaus revela?

Todo ano, entre setembro e novembro, o Rio Negro recua e devolve à cidade uma paisagem que passou meses debaixo d'água. Aparecem bancos de areia, pedras, barcos encalhados. E aparece também o que ninguém gostaria de ver: garrafas, marmitas, sacolas, pedaços de madeira e restos de material que um dia estiveram numa rua, num terreno ou numa obra.
A vazante de 2026 promete ser forte
No início de setembro, o Serviço Geológico do Brasil apresentou, ao lado da Defesa Civil e da Marinha, as projeções para a vazante deste ano em Manaus. Os cenários apontam que o rio pode descer para algo entre 13 e 16 metros na orla da cidade.
O pesquisador André Martinelli, do Serviço Geológico do Brasil no Amazonas, foi direto ao apresentar os números: "O nosso melhor cenário apresentado hoje já colocaria a cota de Manaus entre as dez maiores secas da história. O pior cenário colocaria como a terceira maior seca da história. Só ficaria atrás de 2023 e 2024."
E a seca não deve passar rápido. O meteorologista Renato Senna, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa, alertou que "muito provavelmente nós vamos ter o rio por uma cota baixa por um período bastante longo". Isso significa margem exposta por mais tempo, e mais tempo para o que estava escondido ficar à vista.
O lixo não nasce no rio
No dia 12 de setembro, a Secretaria Municipal de Limpeza Urbana, a Semulsp, começou uma operação de limpeza na orla do São Raimundo, na zona Oeste, e depois seguiu para a Manaus Moderna, o Mirante Lúcia Almeida e a orla da feira da Panair, no Educandos. Marlon Chagas, responsável pelas equipes da Semulsp nesses locais, resumiu o problema: as pessoas precisam se conscientizar sobre "aquela garrafa ou marmita que acham que não vai para o rio".
É isso que a vazante deixa claro. O resíduo que aparece na margem raramente foi jogado ali. Ele veio da cidade: foi deixado na calçada, num terreno baldio ou na beira de um igarapé, e a chuva e a correnteza fizeram o resto.
O volume impressiona. Segundo o secretário da Semulsp, Sabá Reis, só nos três primeiros meses de 2026 mais de mil toneladas de resíduos foram retiradas da orla do Rio Negro, e desde 2021 o total passa de 25,8 mil toneladas. "O trabalho é permanente, estruturado, e envolve uma grande operação todos os dias", afirmou. O subsecretário Jairo Santos completa que cada operação mensal recolhe, em média, entre 350 e 400 toneladas, boa parte retida pelas 14 ecobarreiras instaladas nos igarapés da cidade.
O problema que não se vê
Nem todo resíduo aparece inteiro na areia. Parte dele se quebra em pedaços minúsculos, os microplásticos, e fica na água. Pesquisas já registraram até 74.550 partículas por metro cúbico em igarapés urbanos de Manaus. A ecóloga Danielle Regine Ribeiro-Brasil, professora da Universidade Federal de Mato Grosso, explica por que isso pesa mais nos igarapés do que no rio grande: "Em um grande rio, os microplásticos se dispersam no grande volume de água e podem representar menor risco. Mas, em igarapés, sobretudo os que recebem esgoto e lixo das cidades, uma concentração menor pode ter grande impacto."
Quando o rio baixa, os igarapés perdem água, e o que está neles fica ainda mais concentrado.
E o entulho de obra?
Nem tudo que para no igarapé é embalagem. Em abril de 2025, a prefeitura removeu 200 toneladas de lixo e entulho acumulados às margens do igarapé do Geladinho, na comunidade Águas Claras, zona Norte. No meio do material havia resíduos de construção civil, madeira e lixo doméstico. Na ocasião, o vice-prefeito Renato Junior lembrou que o lixo jogado na rua volta: entope bueiros, fecha saídas de drenagem e causa alagamento.
Com o entulho, a lógica é a mesma. O saco de caliça que ficou "só por uns dias" no terreno ao lado, a pilha de tijolo quebrado encostada no muro, a madeira da reforma largada perto do igarapé. Tudo isso tem caminho para descer quando chove. E o que desce, cedo ou tarde, aparece na margem quando o rio baixa.
O que dá para fazer
- Lixo de casa vai para a coleta domiciliar, nos dias e horários do seu bairro.
- Móveis velhos e objetos grandes podem ir para os ecopontos ou para a coleta agendada da prefeitura.
- Recicláveis têm pontos de entrega voluntária espalhados pela cidade.
- Entulho de obra, reforma ou limpeza de terreno precisa de caçamba e de destinação correta. Não vai para a calçada, para o terreno vazio nem para a beira do igarapé.
Onde a Entulho Manaus entra
A vazante mostra, todo ano, o que acontece com o resíduo que não teve destino. A Entulho Manaus trabalha para que o entulho da sua obra tenha um. A caixa de entulho chega até o seu endereço, recebe os resíduos da reforma, da construção ou da limpeza do terreno e, no prazo combinado, é recolhida.
O serviço sai com nota fiscal e MTR emitido. O MTR é o Manifesto de Transporte de Resíduos, o documento que registra de onde o resíduo saiu e para onde foi. A partir daí, o material segue para destinação licenciada de acordo com o tipo: aterro licenciado, reciclador ou incinerador.
Parece detalhe, mas é o que separa o entulho que some da sua vista do entulho que aparece na margem do rio na próxima vazante.
Tem obra ou reforma em andamento? Fale com a Entulho Manaus!